terça-feira, 23 de setembro de 2008

poetas mortos

Fui à floresta viver de livre vontade,
para sugar o tutano da vida.
Aniquilar tudo o que não era vida.
Para,
quando morrer,
não descobrir que não vivi.


(Henry David Thoreau)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

murmúrios


As palavras esgotaram, mas nunca esgotaremos os silêncios.
Fala-me em silêncio.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

despida no vestido vermelho


ontem, vinhas no vestido rasgado, no vestido sujo,
o vestido era curto. tinha pó.
tinha vergonha. tinha angustia espelhada.
tinha medo e loucura, e era vermelho.


hoje, despiste o teu vestido.
tinhas vergonha dos rasgões, do pó,
da angustia que ela deixava transparecer.
quiseste esconder o medo e a loucura do teu vestido vermelho.


despiste o teu vestido.
deixaste a nu a tua alma negra.


e agora queres procurar o teu vestido.
mas já alguém o lavou,
já alguém o cozeu,
já alguém o engomou.
e agora anda outro alguém com o vestido vermelho.


a tua ganancia e a vergonha do tempo que passou pelo teu vestido deixaram-te nua.


nua, numa alma negra.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

anda ser só um


anda, deixa-me levar-te.
anda, confia em mim.
sai dessa prisão que te sufoca.
anda vamos sorrir.
vamos viver.
anda viver. anda sonhar. anda amar.

anda respirar.
anda comigo,
leva-me contigo.

para onde?
não faças perguntas,
não penses,
não olhes para trás,
liberta-te.

só hoje.
amanhã voltas. hoje anda viver.
não forces, anda.
confia, aprende a confiar.

larga a morte a que chamas vida.

queres gritar? apetece-te gritar?
grita, grita bem alto.
podes ser livre. não te quero prender.

chora. se te apetecer chora.
chora desalmadamente. sorri.
sê tu mesmo, sem limites.
anda, pega na minha mão.

deixa-me ensinar-te a viver,
acredita em mim.

vives tão preso em ti mesmo.
deixa-me libertar-te de ti.

vamos, os dois, por ai...
no silêncio puro das palavras que não se dizem.
não as digas.
(que eu sei-as)

agora anda.
anda ser só um.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

pequeno mundo


o mundo é tão pequeno.
tão pequeno para ti.

que se descubra outro mundo, outros horizontes para os teus olhos se perderem.
que se descubram novas palavras para te dizer, estas são tão singelas...

o mundo é tão pequeno.
tão pequeno para ti.

que se descubram novos sabores e novos aromas, para te perderes.
que se descubram novos esconderijos, para te protegeres do que te aflige.

o mundo é tão pequeno.
tão pequeno para ti.

que se descubram novos amores, e novas paixões, novos poemas e novos poetas.
que se descubra um mundo novo, para ti.


és tu tão grande e tão imenso para tão pequeno mundo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O hoje

é o dia,
o dia consagrado e esquecido
amargurado e imaculado.

o hoje

é o principio,
o principio do que já vai a meio
o dia principal que assombra.

o hoje

é a lágrima,
a lágrima que limpas a disfarçar
depois de a forçar.

o hoje

é a solidão,
a solidão que inventaste,
a solidão que (não) comove.

o hoje

é o grito,
o grito que custa a sair, que quer sair, que precisa de sair
o grito que ninguém pode ouvir.

o hoje

é o sorriso,
o sorriso virgem e cândido
o sorriso hipócrita e irónico que todos têm num pedestal.

o hoje

é o dia,
o dia em que te digo que os ontens foram demais.
e amanhã... será amanhã.

o hoje,

o hoje nunca mais.

(...estava ali guardado, num caderno antigo, com o pó de varias mudanças, de varias metamorfoses e achei que era altura de o passar para aqui.)

Sempre para sempre

"O amor é tudo.

tudo isto,

e nada disto,

para tanta gente..."

(Donna Maria)

dois

impressionam-me as semelhanças,seduzem-me as (nossas) diferenças.